Alcoolismo: associação faz acolhimento de mulheres dependentes

Consumo em excesso de álcool é cada vez maior na população feminina

A nutricionista Isabela Cristina, de Mossoró (RN), 40 anos, começou a beber ainda na adolescência, de forma recreativa. Sua dependência do álcool foi um processo que progrediu pouco a pouco ao longo da vida adulta.

“Era o que chamamos de uma alcoolista funcional, trabalhava, cumpria meus compromissos normalmente. Porém, no final do dia, tinha sempre que ter essa recompensa. Eu já era alcoolista, mas não sabia”, conta.

A situação foi evoluindo até que veio a pandemia. “Comecei a beber todos os dias, naquele confinamento, assistindo lives [transmissões ao vivo pela internet]. Beber era minha única diversão. A partir de um determinado momento, comecei a acordar às 5h e começava a ingerir álcool, até meu marido me alertar sobre o uso excessivo e eu decidir buscar ajuda”, lembra.

O período de isolamento social provocado pela pandemia, principalmente ao longo de 2020 e 2021, levou as pessoas a aumentarem o consumo de álcool. Um estudo realizado pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) em 33 países da América Latina e do Caribe apontou que 42% dos entrevistados no Brasil relataram alto consumo de álcool durante esse período, particularmente entre as mulheres.

Embora não tenha sido causa, a pandemia acabou desvelando um problema que vem gerando preocupação em especialistas: o aumento do consumo de álcool pela população feminina. Não há muitas pesquisas disponíveis sobre esse cenário, mas alguns números são reveladores.

O levantamento do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel), uma plataforma do Ministério da Saúde, mostra que, de 2010 a 2018, o índice de mulheres de 18 a 24 anos que bebem além do recomendado cresceu de 14,9% para 18%. Na faixa etária dos 35 aos 44 anos, esse índice passou de 10,9% para 14%.

Chama a atenção também o consumo de bebida alcoólica entre mulheres idosas: 11,3% daquelas com idades entre 55 e 65 anos bebe além do recomendado, de acordo com o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

“Os homens ainda bebem mais que as mulheres, mas pesquisas recentes estão mostrando que as meninas adolescentes já estão bebendo igual ou mais do que os meninos adolescentes, então está havendo uma mudança nessa faixa etária”, destaca Claudia Leiria, psicóloga especializada em dependência química e fundadora da Associação Alcoolismo Feminino (AAF). A entidade desenvolve um acolhimento exclusivo para mulheres alcoolistas.

Segundo o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), até 2030 o número de mulheres dependentes do álcool será igual ao dos homens. “Por que isso é preocupante? A mulher tem menos água no corpo do que os homens e, conforme avança a idade, essa proporção de água corporal vai diminuindo. Portanto, quando a mulher consome o álcool, ele tem pouca diluição da substância, que fica mais concentrada, e causa mais danos do que no homem”, explica Leiria.

Outro fator biológico é o tamanho padrão da mulher, que são mais baixas que os homens. Nesses casos, o álcool percorre o sistema circulatório mais rapidamente no organismo. “A mulher também tem mais gordura corporal e a gente sabe que o álcool fixa-se mais em tecido adiposo, ou seja, ele adere mais à gordura do que ao músculo, permanecendo um tempo maior no organismo da mulher do que o homem”, acrescenta.

De mulheres para mulheres

Apesar da crescente preocupação com o consumo excessivo de álcool pelas mulheres, fenômeno até pouco tempo negligenciado e até silenciado socialmente, há poucas políticas de acolhimento específicas para esse público. Foi o que percebeu a empreendedora Grazi Santoro, quando decidiu buscar ajuda para enfrentar a própria dependência. Sóbria há 14 anos, ela buscou ajuda nos Alcóolicos Anônimos (AA), onde diz ter sido bem acolhida, mas o ambiente ainda é hostil para as mulheres, que são estigmatizadas.

“Durante todo o tempo em que eu fui acolhida no AA, e fiquei em recuperação, num grupo de 12 passos, me doía muito perceber que poucas mulheres chegavam nesse espaço. Era predomínio de 10 homens para cada mulher. Quando nós, mulheres, chegamos num grupo, a gente chega carente, muitas vezes separadas, solteiras, e o machismo estrutural está dentro de grupos, como está dentro de todos os espaços sociais. O programa de 12 passos funciona e salvou minha vida, mas o ambiente é machista, predominantemente composto por homens machistas. Então, nós somos assediadas e, às vezes, até violentadas”, relata.

Em fevereiro 2020, pouco antes da pandemia e já fora do anonimato como alcoolista, Grazi decidiu compartilhar sua história publicamente, para estimular outras mulheres que queriam tratar a dependência a saber como fazer.

“Foi quando lançamos o Coletivo Alcoolismo Feminino, nos apresentando como mulheres em recuperação e buscando outras mulheres que queriam ajuda, além de familiares dessas mulheres que querem ajuda”.

Após conceder uma entrevista em um programa de televisão, na mesma época, Grazi viu a procura por ajuda explodir nas suas redes. Com isso, Grazi Santoro e a psicóloga Claudia Leiria começaram a estruturar o coletivo a partir de grupos em aplicativos de mensagem do celular.

Num primeiro momento, elas tentavam orientar as mulheres que chegavam a procurar um AA, mas muitas delas até já tinham ido e não se identificavam.

“A gente começou então a criar formas de acolhimento com base no que elas traziam de demanda e passamos a realizar os encontros virtuais. O tratamento não é somente mudar os hábitos e evitar certos lugares, mas cuidar de outras comorbidades que essas mulheres normalmente têm. Muitas, por exemplo, têm depressão, então não adianta só parar de beber, tem que tratar da depressão. Outras viviam num ciclo de violência doméstica e o consumo de álcool potencializava isso, então tinha que olhar paras as várias dimensões do problema”, explica Grazi Santoro. 

Desde que começou como um coletivo, passando para uma associação, a AAF já acolheu mais de 1,2 mil mulheres no país, além de brasileiras residentes na Europa e mulheres portuguesas e angolanas. Atualmente, contam com apoio da Opas/OMS e chegaram a participar de eventos internacionais promovidos pela organização para falar sobre as especificidades do alcoolismo entre mulheres.

Grupos terapêuticos

Uma das características do processo de acolhimento e tratamento da dependência do álcool feito na Associação Alcoolismo Feminino (AAF) é a organização por meio de grupos terapêuticos. São seis ativos no momento: codependência, transtornos alimentares, prevenção de recaídas, violência contra mulheres, LBTQIA+, maternagem e familiares. Esses grupos tratam algumas das principais especificidades do alcoolismo entre mulheres. 

Além disso, há 14 profissionais voluntárias, que incluem psicólogas e nutricionistas, que apoiam a recuperação dessas pessoas. Pelo menos 7 reuniões e rodas de estudos ocorrer semanalmente de forma virtual. Integrantes da AAF também costumam promover palestras em empresas, clínicas de recuperação, escolas, universidades e instituições da sociedade civil. 

Dona de um bar no interior do Rio de Janeiro, Eliete de Abreu Tavares, 40 anos, está há 2 anos e 2 meses sem beber. Antes de buscar tratamento para sua dependência, ela viveu inúmeras situações de constrangimento e até exposição à violência entre amigos e familiares.  

“Me tornei uma pessoa agressiva, tinha apagões alcóolicos, não me lembrava da noite anterior. Todo final de semana eu começava a beber feliz, alegre com todo mundo, mas, no dia seguinte, as pessoas não falavam comigo, porque eu tinha ofendido alguém, tinha quebrado coisas em casa. Eu já não estava aguentando, é um ciclo muito triste”, revela.

Sem saber da existência da AAF, Eliete foi numa reunião do AA e não se sentiu bem. “Eu não me senti bem no AA, é uma instituição muito machista. Além disso, sou lésbica e não me sentia segura de falar da minha vida. Uma pessoa que conhecia foi quem me disse sobre um grupo de mulheres alcóolatras. Quando encontrei a AAF, foi um divisor de águas na minha vida”, conta.

“A diferença que eu vejo da AAF para os outros grupos de acolhimento é que tem mais amorosidade, menos julgamento e mais acolhimento. A mulher se sente mais à vontade para partilhar sua dor. Temos grupos terapêuticos para mulheres que sofreram abusos e violência, para mães ou filhos de alcoolistas, para mulheres que sofrem transtornos alimentares. Quando uma mulher recai, a gente dobra esse apoio, essa atenção, mas sem julgamento, até porque ela já chega carregada de muita culpa. É preciso levantar a autoestima, fazer essa mulher acreditar nela”, argumenta.

Atualmente, Eliete é das voluntárias na AAF, onde atua como guardiã de um dos grupos de mensagens de mulheres. Esses grupos servem para troca de informações e depoimentos, mas também funcionam como uma espécie de plantão de emergência.

“Às vezes, uma das meninas entra num momento de crise, ela avisa no grupo e imediatamente entramos em contato para conversar, acolher, até ela se sentir melhor. Nossa doença é emocional, quando você está feliz, eufórica, é perigoso. E quando você está triste demais, também é um risco de recair”.

Para mulheres que estejam sofrendo e desejam tratar a dependência do álcool, Eliete faz questão de deixar uma mensagem: “eu diria que elas não precisam ter vergonha, que elas não estão sozinhas, só precisam se dar uma oportunidade, deixar a gente amar ela enquanto ela não consegue”.

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